| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | |||
| 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 |
| 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 |
| 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 |
| 26 | 27 | 28 | 29 | 30 | 31 |
Só, os sentidos se expandem.
Os ouvidos tornam-se amplificadores. Aumentam zumbido de mosquito, tilintar de copos, latido de cachorro, barulho de moto, sirene de polícia... E distinguem bem a fala do personagem principal da novela no meio da mistura sonora que mescla uma Madonna no aparelho de som, o A-ha no computador e o fritar dos ovos batidos no azeite de oliva. Não importa o que digam, cantem. O ovo mata a fome.
Só, a casa ganha novos odores. Desentopem narinas sinusíticas, mas embrulham facilmente o fragilizado estômago. Perfume, nem pensar. Antes gravidez, fosse.
Porta aberta. O cheiro do macarrão emaranhado de fungos -- esquecido na assadeira de vidro antes da viagem de quatro dias -- inebria o ambiente. Um produto químico eliminador de odores resolveria, mas o estômago não suportaria.
Só, o suor é mais suor. Cheira a campo, poeira, barro, atoleiro... Só, o cabelo mela, gruda na pele, faz pipocar as espinhas. Só, 39 graus.
Até chulé.
Nas paredes, os olhos montam imagens surrealistas. E também enxergam pequenas aranhas e traças. Só, a infiltração ganha ares de cratera. A manchinha de sujeira produz um mapa-múndi de imperfeições.
Só, pele coça. Fica negra da exposição ao sol, sente ardor. Áspera. Os dedos não suportam o detergente. Surgem rachaduras. Falta hidratante.
Só, não há paixões. Todos os homens são concreto, mulheres, padres. Só, eu, homenzinho. E sujinho.
Só, há saudade...
Da mãe, do romance tão pouco avançado e tão cedo estagnado, do esmalte nas unhas, da maquiagem, das pulseiras, dos brincos... Das orelhas longas da cocker, dos pulos enlameados da pastora-alemã, do verdadeiro e gracioso cheiro de flores e plantas do jardim.
Só, esse enojar de mim mesma -- amplificada em todos os sentidos.
criado por Luci
23:22:53