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Por José Augusto Aguiar

Quase dois anos depois eles pagaram a promessa. O grupo que estudou junto e, sobretudo, celebrou a mais bela e necessária arte: a arte de festejar, valorizar e construir amizades sólidas. Estavam juntos numa mesa de bar. No bar deles. Numa rua tranqüila do interior próximo de São Paulo. Na verdade, do grupo restaram só três pessoas. E essas três só se encontraram no bar em pares de dois. E eu fui o felizardo de compartilhar a mesa primeiro com o mais louco, e depois com a mais aventureira. Primeiro com o cara que disputa uma espécie de campeonato mundial de falar besteiras por segundo. Depois com a moça que fugiu do mundo pra trabalhar na construção de uma hidrelétrica, com a tarefa nada fácil de informar e cuidar das pessoas que perderam suas casas pra energia chegar, nos limites de Goiás e Minas Gerais. Sim, faltaram alguns, que avisaram que não poderiam, e outros que simplesmente não deram as caras. Assim são as amizades que um dia, no calor ingênuo da juventude, pensamos ser para sempre. Umas desaparecem, outras ficam.
Ficam para serem resgatadas e cantadas na mesa do nosso bar. Um bar com mesas de madeira, paredes de tijolos vermelhos incrustadas de posters de mitos do rock e cinema, uma boa cerveja e sempre com um showzinho acústico de rock pra entreter a galera e semear os profundos ventos e melodias do rock clássico.
Falamos das zoeiras e bagunças do passado, do barulho e loucuras que semeávamos na faculdade e no hotel, das sextas insanas e sábados em que parecíamos zumbis, das boas e más aulas, dos mestres e farsantes, das lições de palavras e da vida. E também do presente ainda duvidoso e futuro incerto, mas ainda com sonhos a serem encarados. Falamos do que tentaremos fazer de nossas vidas. E não falamos do óbvio que um encontro com grandes companheiros do passado não precisa traduzir verbalmente: que era bom demais estar ali, naquele lugar familiar, junto daquela mesa e paredes que presenciaram tantos bons momentos, de tantos bons amigos. Não falamos mas sentimos, especialmente quando o violão honesto e emoção do cantor da noite mandou o ponto alto da noite. Mandou Oasis, Stand By Me. Conta Comigo. Sim, de repente estávamos num pub inglês encarando juntos o frio (fios) da vida. Juntos na bela cidade (mas de povo frio, com exceção dos cantores de nosso bar) tão perto de São Paulo. Juntos porque celebrávamos um dos ingredientes vitais da amizade que criamos: as melodias e palavras mais belas do rock. Palavras-mensagens, palavras proféticas, ou simplesmente o avassalador ritmo da vida:
Stand by me, nobody knows the way´s gonna be... Conta comigo, ninguém sabe de que jeito que vai ficar, qual caminho que vai rolar...
Não pára de rolar é esse sentimento bom de sentar com amigos e amigas do peito pra escutar um som num lugar acolhedor e conversar sobre as coisas mais importantes da vida. Só isso que queria de meus amigos aqui de Sampa. Só isso. Trocar idéias, afetos, abraços e canções num lugar legal. Num lugar que pudéssemos chamar de nosso templo da amizade e rock and roll.
Ainda não encontrei nenhum bar como esse por aqui. Ou talvez os amigos e amigas daqui não estejam se empenhando para me ajudar nessa busca, tão importante, de um refúgio-templo noturno da amizade.
Se alguém encontrar, avisa. Tudo que quero são as boas canções, do rock e dos belos corações e sonhos de vocês, meus amigos e amigas paulistanos.
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criado por Luci
23:57:52Sempre me considerei uma pessoa dividida (amores, amizades, cidades, planos). E por muito achei que isso fosse ruim. Era sinônimo de indecisão. Fazer o quê, pra quê, onde morar, quem escolher pra amar, por quê?!...
Hoje, a suposta indecisão é o meu maior trunfo. A profissão contribuiu muito para dilatar a consciência, conhecer e aceitar ambientes, gentes, coisas, razões... Sobretudo, a insatisfação com o ofício. Tenho pouco tempo nessa vida pós-faculdade, mas já percorri muitos “quilômetros” (nos últimos tempos, literalmente -- cerca de 300 por dia).
No entanto, só agora descubro que o diploma recebido não é uma camisa-de-força reducionista encerrada na palavra Jornalismo. E se pudesse deixar um conselho para o estudante que, desavisado como eu, caiu numa faculdade que “ensina nossa profissão” -- ou mesmo para um colega recém-formado --, eu diria: enxergue e esmiúce bem as duas palavras que vêm antes de “Habilitação Jornalismo”, registradas na ficha do Vestibular ou estampadas no diploma guardado na gaveta.
Sim, porque o curso, na verdade, é de Comunicação Social. E o meu atual desafio tem sido descobrir suas possibilidades. Inúmeras e excepcionais.
O que mais tem valido a pena?!...
Atualmente, a Comunicação tem me proporcionado sorrisos sinceros e singelos, abraços que curam nós na garganta, que preenchem buracos no peito, palavras que cicatrizam feridas, além de reflexões que transcendem a mera funcionalidade do raciocínio dedutivo.
Ela me aproxima de sentimentos singulares, sem qualquer cortina de falsidade. Faz-me entender cotidianamente o sentido da compaixão -- muito diferente do sentimentalismo revestido de pena, que impõe valas entre seres humanos.
O ofício também me faz sofrer o sofrimento alheio, mas a empatia (o ver, sentir, se colocar no lugar do outro) conforta-me -- tanto nas minhas como nas outras angústias.
Obviamente, há muito o que aprender. Muito mais do que a ensinar. Mas só temos essa percepção quando aceitamos nossos equívocos e renunciamos a uma estabilidade (onde todos nos reconhecem, valorizam, elogiam) e optamos por mudar (interna ou externamente) e (re) descobrir.
O novo nem sempre é mais difícil, mas mete medo, desafia. O mais importante, contudo, é que nos faz acreditar no valor das amizades, das relações humanas. Porque não existe nada mais desolador que duvidar de sua própria condição.

criado por Luci
12:13:40Só, os sentidos se expandem.
Os ouvidos tornam-se amplificadores. Aumentam zumbido de mosquito, tilintar de copos, latido de cachorro, barulho de moto, sirene de polícia... E distinguem bem a fala do personagem principal da novela no meio da mistura sonora que mescla uma Madonna no aparelho de som, o A-ha no computador e o fritar dos ovos batidos no azeite de oliva. Não importa o que digam, cantem. O ovo mata a fome.
Só, a casa ganha novos odores. Desentopem narinas sinusíticas, mas embrulham facilmente o fragilizado estômago. Perfume, nem pensar. Antes gravidez, fosse.
Porta aberta. O cheiro do macarrão emaranhado de fungos -- esquecido na assadeira de vidro antes da viagem de quatro dias -- inebria o ambiente. Um produto químico eliminador de odores resolveria, mas o estômago não suportaria.
Só, o suor é mais suor. Cheira a campo, poeira, barro, atoleiro... Só, o cabelo mela, gruda na pele, faz pipocar as espinhas. Só, 39 graus.
Até chulé.
Nas paredes, os olhos montam imagens surrealistas. E também enxergam pequenas aranhas e traças. Só, a infiltração ganha ares de cratera. A manchinha de sujeira produz um mapa-múndi de imperfeições.
Só, pele coça. Fica negra da exposição ao sol, sente ardor. Áspera. Os dedos não suportam o detergente. Surgem rachaduras. Falta hidratante.
Só, não há paixões. Todos os homens são concreto, mulheres, padres. Só, eu, homenzinho. E sujinho.
Só, há saudade...
Da mãe, do romance tão pouco avançado e tão cedo estagnado, do esmalte nas unhas, da maquiagem, das pulseiras, dos brincos... Das orelhas longas da cocker, dos pulos enlameados da pastora-alemã, do verdadeiro e gracioso cheiro de flores e plantas do jardim.
Só, esse enojar de mim mesma -- amplificada em todos os sentidos.

criado por Luci
23:22:53