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Terra Blog

14.09.08

E as eleições?!...

 

Ficar imune às eleições municipais quando se vive na cidade?! Ora, nem quando se esconde no campo. Em assentamento rural, então, esqueça. Quem acha que é tudo vermelho, engana-se. É, sim, um arco-íris partidário, mas com nuances e matizes muito parecidas.

Na mistura das tintas, o azul fica vermelho, o vermelho torna-se ainda mais  cor-de-rosa e o verde ("O que seria do verde não fosse o mau gosto?!”) promove um mosaico fluorescente, misturando-se, como de costume, a todas as tonalidades.

Lógico que seria tarefa impossível. Paradoxal, até. Mas digo que tentei. E estou feliz por não ter de fazer, este ano, aquelas séries intermináveis de reportagens sobre "propostas" de candidatos para a saúde, educação, cultura, esporte, transporte... Aquelas coisas repetitivas, contraproducentes (palavra feia e arcaica, mas que cabe bem aqui), reduzidas em sintaxes vazias, que não promovem uma expansão do pensamento, mas disseminam conceitos simplórios, clichês alienantes –- mantenedores do status quo, diria Hebert Marcuse.

Acompanho tudo de longe. Ao mesmo tempo, bem de pertinho. Não preciso ir atrás de políticos, postulantes a cargos eletivos e "papagaios-de-pirata" de plantão ou procurar por analistas, entrevistar sociólogos, economistas etc para aquelas reportagens-análises enfadonhas, que só “intelectual” lê (“intelectuários”, diria minha amiga Pat Veiga). Ao contrário, eles, os políticos, (...). (...). (!!!). (???). Deixa pra lá. O que não muda: como antes, às vezes, chateia. Mas bem menos, tenha certeza.

Como antes, também, as propagandas eleitorais me divertem. Pela televisão, acompanho as de Paracatu (MG) e Uberlândia (MG). A de Cristalina (GO) vivencio mais, por estar no município -– zona urbana ou rural -- quase o dia todo. Em Paracatu, porém, está minha casa, que, à noite, recebe um corpo exausto em busca de repouso.

No município mineiro, a disputa é muito mais sonora. Infernal, para ser mais precisa. Típico de Paracatu, onde os carros (caminhonetes em geral) disputam um campeonato diário de som automotivo a cada esquina.

Em Cristalina, a campanha apela para o visual. Bandeirinhas com os números dos candidatos estampam boa parte das casas e prédios. No conjunto habitacional recém-inaugurado, não faltou um adereço para cada residência, claro. Difícil foi convencer o Ministério Público (MP) de que a adesão era espontânea. Dizem que o MP mandou retirar. Não sei. Sem jornalismo...

Em Cristal City também não dá para saber se o carro é de um comitê eleitoral ou não. Quase todos os veículos carregam adesivos até a antena...

Já a campanha de Goiânia só sigo, porcamente, pela internet -– embora eu tenha visto a propaganda eleitoral nos dois últimos finais de semana (quando estava em casa -- a outra, primeira, verdadeira).

Bizarro ver Túlio Maravilha, candidato pelo PMDB, pedindo votos entre intervalo e outro dos jogos do Vila Nova pela Série B do Brasileirão. Terrível ver as mesmas figuras –- aquelas que 20 anos antes de eu nascer já governavam a cidade -- repetindo discurso paternalista, ultrapassado. E pior: liderando disparadamente todas as pesquisas de intenção de votos.

Poucas candidaturas desta vez. Pudera. Muitos arco-íris de coligações estapafúrdias. Há uma chapa de esquerda (será mesmo?!), formada por Psol e PSTU...

De qualquer forma, estarei lá no dia 5 de outubro. Sim, votarei.

Mas, por falar em Psol, ia esquecendo-me... Acredite você: em Cristalina, existe uma coligação que junta o Democratas (DEM) com o partido de Heloisa Helena. Será que a ex-senadora sabe disso?! E o arco-íris é completo, viu, Helô?! No mesmo balaio estão também os petistas e toda a tucanada com seus congêneres. A saber: DEM, PSDB, PSB, PRB, PTB, PRTB, PSDC, PP, PT, PHS, Psol, PTN, PMN.

Ora, mas viva as eleições municipais no Brasil! Pelo menos a propaganda da Justiça Eleitoral é boa. A melhor de todos os tempos. Criada pela W/Brasil, que, de propaganda, entende bem.

  • criado por  Luci criado por Luci
  • Postado em 22:44:27

07.09.08

Os mestres do mestre

 

O blog não é do Zé, mas de novo vão algumas linhas escritas por ele. Um dos caras mais lindos que já conheci. O verdadeiro Peter Pan ou, quem sabe, o Surfista Prateado.

 

José Augusto de Aguiar Costa lançou novo livro, do qual faço propaganda aqui – Heróis do esporte: heróis da vida (Editora Lance). Com ele, ganhou um concurso patrocinado pelo jornal Lance!. 

 

 Zé, menino-homem apaixonado por esportes, são-paulino, cinéfilo, roqueiro, surfista, professor de redação, jornalista e grande viajante. Amigo com o qual tive oportunidade de partilhar belos momentos, seja em sala de aula, hotel ou no nosso eterno bar, já descrito no texto abaixo.

Peter Pan, Doug Funnie, Supla, Surfista Prateado, Zezinho... Alcunhas criadas para o mais paulistano de todos os que conheço. Que me encanta com suas histórias, sua bondade e inigualável disposição de criança. Que nos ensina a ver o belo. Que sabe compreender pelo olhar (mesmo quando se trata de um olhar virtual). Um homem apaixonado por sua (nossa) condição humana.

 

Infelizmente, eu falhei. Não estive no lançamento do livro, como havia planejado. Mas não precisava estar fisicamente lá, você sabe disso, Zé!


Aqui, trechos extraídos do “Pão na  Chapa” :

 

“Herói pode ser uma palavra forte demais para definir grandes campeões ou perdedores que se reergueram na história do esporte. Mas que outra palavra pode ser fiel a atletas e treinadores que nos inspiraram tanto?

 

Como não chamar de herói Ayrton Senna, Oscar, Michael Jordan, Telê Santana, Paula, Hortência, Taffarel, Steffi Graf, Felipão, Barbosa, Meligeni, Marcos, Rivaldo, Cathy Freeman, Bethany Hamilton, Rocky Balboa, Clodoaldo Silva, entre outros nomes mágicos, reunidos nesse livro? Os heróis do esporte são heróis da vida porque nos legaram a dignidade e o coração que tiveram nos momentos decisivos.


Quem quiser comprar o livro, é só entrar no link abaixo e investir apenas 20 pilas.
http://lancestore.com.br/scripts/produto.asp?p=940&c=415&navega_marca=1&menu_marca=46


Quem quiser ler o prefácio, a introdução e o primeiro capítulo, entra no site da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e coloca o nome do livro do mecanismo de busca. Dá pra comprar pela Cultura também.

 

Dêem uma força, moçada!" (J.A.A.C)


Trechos do livro:

“Jogar pelo Brasil era a sua vida. Por causa desse amor recusou seguidos convites para jogar na NBA, nos anos 80, porque perderia sua condição de amador, o que o impediria de jogar pelo Brasil... Por isso Oscar jamais entenderá a postura de atletas que se recusam a defender a seleção por motivos pessoais ou políticos.”


“Exibir-se, aproveitar a fama? Jamais. Marta só é estrela dentro do campo, onde explora sua arte em jogadas individuais geniais. Fora dos gramados é uma estrela humilde. Tem total noção de que o futebol feminino brasileiro foi construído com muita luta (contra o preconceito dos homens e familiares, descaso e falta de apoio) e outras estrelas que vieram antes ou junto dela.”


“Poucas histórias comoveram tanto como a desse homem bom humilde e ignorante (pouco estudado), com dificuldade para se expressar, que encontra sua única chance no boxe. Rocky Balboa cativou o mundo com sua simplicidade, coração e treinos infernais”.

 

  • criado por  Luci criado por Luci
  • Postado em 13:56:28

26.05.08

Stand by me

Por José Augusto Aguiar




Quase dois anos depois eles pagaram a promessa. O grupo que estudou junto e, sobretudo, celebrou a mais bela e necessária arte: a arte de festejar, valorizar e construir amizades sólidas. Estavam juntos numa mesa de bar. No bar deles. Numa rua tranqüila do interior próximo de São Paulo. Na verdade, do grupo restaram só três pessoas. E essas três só se encontraram no bar em pares de dois. E eu fui o felizardo de compartilhar a mesa primeiro com o mais louco, e depois com a mais aventureira. Primeiro com o cara que disputa uma espécie de campeonato mundial de falar besteiras por segundo. Depois com a moça que fugiu do mundo pra trabalhar na construção de uma hidrelétrica, com a tarefa nada fácil de informar e cuidar das pessoas que perderam suas casas pra energia chegar, nos limites de Goiás e Minas Gerais. Sim, faltaram alguns, que avisaram que não poderiam, e outros que simplesmente não deram as caras. Assim são as amizades que um dia, no calor ingênuo da juventude, pensamos ser para sempre. Umas desaparecem, outras ficam.

Ficam para serem resgatadas e cantadas na mesa do nosso bar. Um bar com mesas de madeira, paredes de tijolos vermelhos incrustadas de posters de mitos do rock e cinema, uma boa cerveja e sempre com um showzinho acústico de rock pra entreter a galera e semear os profundos ventos e melodias do rock clássico.

Falamos das zoeiras e bagunças do passado, do barulho e loucuras que semeávamos na faculdade e no hotel, das sextas insanas e sábados em que parecíamos zumbis, das boas e más aulas, dos mestres e farsantes, das lições de palavras e da vida. E também do presente ainda duvidoso e futuro incerto, mas ainda com sonhos a serem encarados. Falamos do que tentaremos fazer de nossas vidas. E não falamos do óbvio que um encontro com grandes companheiros do passado não precisa traduzir verbalmente: que era bom demais estar ali, naquele lugar familiar, junto daquela mesa e paredes que presenciaram tantos bons momentos, de tantos bons amigos. Não falamos mas sentimos, especialmente quando o violão honesto e emoção do cantor da noite mandou o ponto alto da noite. Mandou Oasis, Stand By Me. Conta Comigo. Sim, de repente estávamos num pub inglês encarando juntos o frio (fios) da vida. Juntos na bela cidade (mas de povo frio, com exceção dos cantores de nosso bar) tão perto de São Paulo. Juntos porque celebrávamos um dos ingredientes vitais da amizade que criamos: as melodias e palavras mais belas do rock. Palavras-mensagens, palavras proféticas, ou simplesmente o avassalador ritmo da vida:

Stand by me, nobody knows the way´s gonna be... Conta comigo, ninguém sabe de que jeito que vai ficar, qual caminho que vai rolar...

Não pára de rolar é esse sentimento bom de sentar com amigos e amigas do peito pra escutar um som num lugar acolhedor e conversar sobre as coisas mais importantes da vida. Só isso que queria de meus amigos aqui de Sampa. Só isso. Trocar idéias, afetos, abraços e canções num lugar legal. Num lugar que pudéssemos chamar de nosso templo da amizade e rock and roll.

Ainda não encontrei nenhum bar como esse por aqui. Ou talvez os amigos e amigas daqui não estejam se empenhando para me ajudar nessa busca, tão importante, de um refúgio-templo noturno da amizade.

Se alguém encontrar, avisa. Tudo que quero são as boas canções, do rock e dos belos corações e sonhos de vocês, meus amigos e amigas paulistanos.

...

  • criado por  Luci criado por Luci
  • Postado em 23:57:52

04.05.08

O valor da Comunicação

Sempre me considerei uma pessoa dividida (amores, amizades, cidades, planos). E por muito achei que isso fosse ruim. Era sinônimo de indecisão. Fazer o quê, pra quê, onde morar, quem escolher pra amar, por quê?!...

Hoje, a suposta indecisão é o meu maior trunfo. A profissão contribuiu muito para dilatar a consciência, conhecer e aceitar ambientes, gentes, coisas, razões... Sobretudo, a insatisfação com o ofício. Tenho pouco tempo nessa vida pós-faculdade, mas já percorri muitos “quilômetros” (nos últimos tempos, literalmente -- cerca de 300 por dia).

No entanto, só agora descubro que o diploma recebido não é uma camisa-de-força reducionista encerrada na palavra Jornalismo. E se pudesse deixar um conselho para o estudante que, desavisado como eu, caiu numa faculdade que “ensina nossa profissão” -- ou mesmo para um colega recém-formado --, eu diria: enxergue e esmiúce bem as duas palavras que vêm antes de “Habilitação Jornalismo”, registradas na ficha do Vestibular ou estampadas no diploma guardado na gaveta.

Sim, porque o curso, na verdade, é de Comunicação Social. E o meu atual desafio tem sido descobrir suas possibilidades. Inúmeras e excepcionais.

 

O que mais tem valido a pena?!...

Atualmente, a Comunicação tem me proporcionado sorrisos sinceros e singelos, abraços que curam nós na garganta, que preenchem buracos no peito, palavras que cicatrizam feridas, além de reflexões que transcendem a mera funcionalidade do raciocínio dedutivo.

Ela me aproxima de sentimentos singulares, sem qualquer cortina de falsidade. Faz-me entender cotidianamente o sentido da compaixão -- muito diferente do sentimentalismo revestido de pena, que impõe valas entre seres humanos.

 

O ofício também me faz sofrer o sofrimento alheio, mas a empatia (o ver, sentir, se colocar no lugar do outro) conforta-me -- tanto nas minhas como nas outras angústias.

Obviamente, há muito o que aprender. Muito mais do que a ensinar. Mas só temos essa percepção quando aceitamos nossos equívocos e renunciamos a uma estabilidade (onde todos nos reconhecem, valorizam, elogiam) e optamos por mudar (interna ou externamente) e (re) descobrir.

 

O novo nem sempre é mais difícil, mas mete medo, desafia. O mais importante, contudo, é que nos faz acreditar no valor das amizades, das relações humanas.  Porque não existe nada mais desolador que duvidar de sua própria condição.

 

 

  • criado por  Luci criado por Luci
  • Postado em 12:13:40

31.03.08

O odor da solidão

Só, os sentidos se expandem.


Os ouvidos tornam-se amplificadores. Aumentam zumbido de mosquito, tilintar de copos, latido de cachorro, barulho de moto, sirene de polícia... E distinguem bem a fala do personagem principal da novela no meio da mistura sonora que mescla uma Madonna no aparelho de som, o A-ha no computador e o fritar dos ovos batidos no azeite de oliva. Não importa o que digam, cantem. O ovo mata a fome.

Só, a casa ganha novos odores. Desentopem narinas sinusíticas, mas embrulham facilmente o fragilizado estômago. Perfume, nem pensar. Antes gravidez, fosse.

 

Porta aberta. O cheiro do macarrão emaranhado de fungos -- esquecido na assadeira de vidro antes da viagem de quatro dias -- inebria o ambiente. Um produto químico eliminador de odores resolveria, mas o estômago não suportaria.

Só, o suor é mais suor. Cheira a campo, poeira, barro, atoleiro... Só, o cabelo mela, gruda na pele, faz pipocar as espinhas. Só, 39 graus.

Até chulé.

Nas paredes, os olhos montam imagens surrealistas. E também enxergam pequenas aranhas e traças. Só, a infiltração ganha ares de cratera. A manchinha de sujeira produz um mapa-múndi de imperfeições.

Só, pele coça. Fica negra da exposição ao sol, sente ardor. Áspera. Os dedos não suportam o detergente. Surgem rachaduras. Falta hidratante.

Só, não há paixões. Todos os homens são concreto, mulheres, padres. Só, eu, homenzinho. E sujinho.

Só, há saudade...

Da mãe, do romance tão pouco avançado e tão cedo estagnado, do esmalte nas unhas, da maquiagem, das pulseiras, dos brincos... Das orelhas longas da cocker, dos pulos enlameados da pastora-alemã, do verdadeiro e gracioso cheiro de flores e plantas do jardim.

Só, esse enojar de mim mesma -- amplificada em todos os sentidos.


  • criado por  Luci criado por Luci
  • Postado em 23:22:53